5 de outubro de 2008

Manifesto Situacionista

Uma nova força humana, que a estrutura existente não poderá dominar, cresce dia a dia com o irresistível desenvolvimento técnico e a insatisfação de seus usos possíveis em nossa vida social carente de sentido.

A alienação e a opressão nesta sociedade não podem ser mantidas sob qualquer uma de suas variantes, mas somente rejeitadas em bloco com esta mesma sociedade. Todo progresso real fica evidentemente em suspenso até a solução revolucionária da crise multiforme do presente.

Quais são as perspectivas de uma organização da vida em uma sociedade que autenticamente "reorganiza a produção sobre as bases de uma associação livre e igual de produtores"? A automatização da produção e a socialização dos bens vitais reduzirão cada vez mais o trabalho como necessidade exterior e proporcionarão, finalmente, a liberdade completa para o indivíduo. Livre assim de toda responsabilidade econômica, livre de todas as dívidas e culpas para com o passado e o próximo, o homem disporá de uma nova mais-valia incalculável em dinheiro porque é impossível reduzi-la para a medida do trabalho assalariado: o valor do jogo, da vida livremente construída. O exercício de tal criação lúdica é a garantia da liberdade de cada um e de todos na estrutura da única igualdade garantida contra a exploração do homem pelo homem. A liberação do jogo é a autonomia criativa, que supera a velha divisão entre o trabalho imposto e o ócio passivo.

A igreja queimou noutros tempos os pretensos feiticeiros para reprimir as tendências lúdicas primitivas conservadas nas festas populares. Na sociedade hoje dominante, que produz massivamente tristes pseudo-jogos da não-participação, uma atividade artística verdadeira é forçosamente classificada no campo da criminalidade. É semiclandestina. Surge na forma de escândalo.

Que é isso, de fato, mais que a situação? Se trata da realização de um jogo superior, que mais exatamente é provocada pela presença humana. Os jogadores revolucionários de todos os países podem reunir-se na Internacional Situacionista para começar a sair da pré-história da vida quotidiana.

A partir de agora, propomos uma organização autônoma dos produtores da nova cultura, independentes das organizações políticas e sindicais que existem neste momento, pois questionamos a capacidade delas de organizar outra coisa que a manutenção do que existe.

O objetivo mais urgente que estabelecemos a tal organização, no momento em que deixa o estágio inicial experimental para uma primeira campanha pública, é a tomada da UNESCO. A burocratização, unificada em escala mundial, da arte e de toda a cultura é um fenômeno novo que expressa o profundo parentesco dos sistemas sociais coexistentes no mundo, sobre a base da conservação eclética e a reprodução do passado. A resposta dos artistas revolucionários a estas novas condições deve ser um novo tipo de ação. Como a existência mesma desta concentração administrativa da cultura, localizada em uma construção única, favorece o roubo por meio do golpe e como a instituição é completamente destituída de qualquer senso de uso fora de nossa perspectiva subversiva, nos achamos justificados diante de nossos contemporâneos para tomarmos tal aparato. E o faremos.

Estamos decididos a nos apossarmos da UNESCO, mesmo que por pouco, já que estamos seguros de fazer disso rapidamente uma obra que permanecerá, para esclarecer uma longa série de perguntas, como a mais significativa.

Quais deverão ser os principais caracteres da nova cultura e como ela se compararia com a arte antiga?

Contra o espetáculo reinante, a cultura situacionista realizada introduz a participação total.
Contra a arte conservada, é um organização do momento vivido diretamente.
Contra a arte parcelar, será uma prática global que se dirija ao mesmo tempo sobre todos os elementos utilizados. Tende naturalmente a uma produção coletiva e, sem dúvida, anônima (pelo menos na medida em que, ao não estar as obras armazenadas como mercadorias, tal cultura não estará dominada pela necessidade de deixar traços). Suas experiências se propõem, como mínimo, uma revolução do comportamento e um urbanismo unitário, dinâmico, suscetível de estender-se ao planeta inteiro; e de ser prolongado seguidamente a todos os planetas habitáveis.

Contra a arte unilateral, a cultura situacionista será uma arte do diálogo, uma arte da interação. Os artistas – com toda a cultura visível – chegaram a estar completamente separados da sociedade, do mesmo modo que estão separados entre si pela concorrência. Mas antes inclusive deste corredor sem saída do capitalismo, a arte era essencialmente unilateral, sem resposta. Superará esta era fechada do primitivismo por uma comunicação completa.

Ao ser, em um estágio avançado, todo mundo artista, isto é, inseparavelmente produtor-consumidor de uma criação cultural, se assistirá a dissolução rápida do critério linear de novidade. Ao se tornar todo mundo, por assim dizer, situacionista, se verá a uma inflação multidimensional de tendências, de experiências, de "escolas" radicalmente diferentes e isto não já sucessivamente, mas simultaneamente.

Inauguramos agora o que será, historicamente, o últimos dos ofícios. O papel de situacionista, de amador-profissional, de anti-especialista, é ainda uma especialização até o momento da abundância econômica e mental no qual todo mundo se tornará "artista", num sentido que os artistas não alcançaram: a construção da própria vida. Entretanto, o último ofício da história é tão próximo da sociedade sem divisão permanente do trabalho, que quando aparece, seu estado de ofício foi negado.
Aos que não nos compreenderam bem dizemos com um irredutível desprezo: os situacionistas, de quem vocês acreditam serem os juízes, vos julgarão um dia ou outro. Esperamos vocês no momento crucial que é a inevitável liquidação do mundo da escassez, sob todas as suas formas. Estes são nossos fins e serão os fins futuros da humanidade.

Internationalle Situationniste nº 4, 1960

5 de setembro de 2008

Epílogo da ocupação

Para que a Universidade se consolide como uma instituição democrática é necessário que congregue no seu seio todos os seguimentos que constitui a sociedade, independente de cor, etnia, sexualidade ou classe social, e mais do que isso é necessário que garanta a permanência e igualdade de oportunidades desses grupos a fim de possibilitar a todos o acesso a cultura e ao conhecimento.

Sabemos que a assistência estudantil, bem como o acesso de todos à universidade, é uma das principais bandeiras defendidas pela história do movimento estudantil. Somente quando estiver assegurado o acesso à cultura e ao conhecimento para todos aqueles que não possuem condições materiais, é que a universidade consolidará a democracia entre os seus membros. A moradia estudantil, assim como a alimentação, a bolsa permanência, a assistência médica, o acesso ao livro, em suma, a assistência estudantil em geral, bem como a educação gratuita e de qualidade, está assegurada desde 1988 pela Constituição Federal do Brasil. Portanto, é dever do Estado, representado pelas reitorias, responsabilizar-se pela permanência dos estudantes carentes desta instituição federal de ensino superior.

As universidades públicas brasileiras têm passado por constantes expansões nas épocas recentes, porém a pretensa democracia que tem se desvelado no seu acesso não tem se estendido no que diz respeito a permanência dos seguimentos antes excluídos. Exemplos dessa situação são encontrados no projeto do REUNI e na política de ações afirmativas, que pretendem dar forma a democracia latente que pulsa nas veias da sociedade, porém têm se demonstrado insuficiente para atender as expectativas mais básicas daqueles que vislumbram as mesmas possibilidades das elites que desde sempre percorrem os corredores da academia.

O que é apresentado ao cotidiano da UFOP tem copiado insistentemente essa realidade segregante. A Universidade recebeu nesse último vestibular mais de 1000 alunos, sendo que no mínimo 30% desses são oriundos do ensino público, que se constitui a única alternativa da maioria dessas pessoas que ainda esperam do Estado o que lhe foi negado durante toda a história da sua existência.

Essa situação gerou a ocupação da PRACE na última terça-feira, quando mais de 20 alunos, entre os quais se apresentavam 5 alunos negligenciados pela debilitada assistência estudantil da UFOP, aos quais se somaram mais 8 na mesma situação, e inúmeros outros que exigiam o direito a assistência estudantil como condição para permanência desses 13 alunos.

Embora o resultado da ação direta realizada pelos estudantes tenha se demonstrado satisfatória (13 bolsas permanência e a promessa do atendimento as necessidades dos demais alunos da lista do alojamento estudantil), ainda se demonstra muito pequena frente a irresponsabilidades dessa e das outras administrações com relação a moradia estudantil socio-ecônomica, que hoje atende aproximadamente 1% dos alunos da instituição.

Diante das conquistas dessa ação direta fica claro que o movimento estudantil, organizado e unido, como é demonstrado em toda a sua história, apresenta melhores resultados do que a esperança depositada pela demagogia das atuais lideranças da maioria dos seguimentos institucionais da sociedade brasileira. Mais do que ocupar um espaço físico, é condição necessária desocupar as consciências de toda a dissimulação estabelecida, tornando-as conscientes das contradições ocultadas em nossa sociedade.


Todas as ocupações são impossíveis até se tornarem inevitáveis.


Assinam:

MOPRACE e Coletivo Amar e Mudar as Coisas.

31 de agosto de 2008

Carta Manifesto do Movimento de Ocupação da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis - UFOP

CARTA MANIFESTO

A moradia estudantil, assim como a alimentação, a bolsa permanência, a assistência médica, o acesso ao livro, em suma, a assistência estudantil em geral, bem como a educação gratuita e de qualidade, está assegurada desde 1988 pela Constituição Federal do Brasil. Portanto, é dever do Estado, representado pela reitoria, responsabilizar-se pela permanência dos estudantes carentes desta instituição federal de ensino superior.
Assim sendo, nós, alunos da Universidade Federal de Ouro Preto, aqui ocupados na PRACE - Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis da UFOP, exigimos que o Magnífico Reitor Dr. João Luiz Martins, se comprometa a oferecer uma solução emergencial a todos os estudantes que foram classificados pelo processo seletivo para ocuparem vagas no alojamento estudantil e que, no entanto, não serão alocados imediatamente nessas moradias, por serem somente 7 (sete) as vagas disponíveis neste momento.
Exigimos também que os estudantes membros da ocupação não sofram nenhum tipo de penalidade, visto que o movimento é de cunho pacífico e, sobretudo, por se legitimar na luta daqueles estudantes que não possuem condições materiais de se manterem nesta instituição.
Cabe ressalvar que em nenhum momento o movimento impediu o funcionamento da PRACE - Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis, permitindo o livre acesso, entrada e saída, tanto dos funcionários locados nesta seção quanto dos que procuraram atendimento durante o período da ocupação.
Diante da proposta do reitor, de solucionar a emergência apenas dos cinco alunos classificados no processo seletivo supracitado, de serem beneficiados por uma bolsa permanência de R$ 300,00 (trezentos reais) por somente estarem eles presentes durante a negociação com o reitor neste ato de ocupação pacífica, o movimento propõe que o mesmo benefício seja estendido aos outros alunos classificados neste edital de seleção, visto também que estes são merecedores do mesmo respeito e direito de permanecerem nesta universidade. É importante que a PRACE divulgue a toda comunidade acadêmica e em todos os meios de comunicação possíveis o direito de aquisição ao benefício reivindicado, além de conceder um prazo razoável para que os alunos interessados consigam manifestar o devido interesse.

Exigimos também:
- A garantia de bolsa permanência a todos os alunos que comprovarem, através de critério sócio-econômico, não terem condições de se manterem nesta instituição.
- que seja divulgada a lista completa dos moradores ocupantes das Republicas Federais, e que a PRACE monitore o coeficiente acadêmico dos alunos, a fim de averiguar possíveis empecilhos que estejam dificultando a boa formação do aluno.
- que a PRACE dê um posicionamento final (prazo de 01 mês) a respeito da questão do processo seletivo ocorrido para a República Jardim Zoológico.

O movimento, portanto, resolve não desocupar a PRACE até que seja garantido, em ofício assinado pelo Pró-Reitor da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis, o Sr. Rafael Magdalena, e pelo Magnífico Reitor Dr. João Luiz Martins, o compromisso de solucionar nossas reivindicações.

Ouro Preto, 27 de agosto de 2008.

MOPRACE - Movimento de Ocupação da
Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis – UFOP
Coletivo Amar e Mudar as Coisas

28 de agosto de 2008

lua vaga em noite ocupada

não vou ceder meus cabelos ao divertimento alheio
nem submeter meu pescoço às placas de moradia
não quero fazer joça aos direitos do corpo
nem comprá-los à custa de ordens ditas pela tradição
ter onde encostar a cabeça é algo sagrado
quando esta pede repouso

(a ave tem ninho e mora no céu
pois cedo se ouve o canto seu)

meu segredo é a humilhação sem batalhas
humilhação feita de humus e terra
terra sem traição das minhas buscas
: minha cara dada a tapas por motivos justos

não quero fazer posse do telhado público
onde se estendem bandeiras sujas
costuradas de privilégios
e cores que não correspondem à razão
daqueles sem abrigo

a lista dos que carecem é pendurada na sala de espera
as autoridades não demonstram urgência na resolução
desde passados
a caixinha recorda coisas pequenas, apenas
mas o treinamento de favores não
(e há bixos que sabem disso)

aos nomes descontemplados
parece restar uma opção no acaso
ocupar o gabinete da assistência
e alojar-se entre as falhas e a burocracia
incomodar é preciso enquanto se vive incomodado
(pena de pena aos acomodados da torre de marfim
sentados na pedra)
conto de fardos nesta cidade amontanhada

estas ruas são por demais estreitas
e íngremes o seu percurso mal desenhado
(nisto está a beleza delas)
a princípio não dão em nada
sem mãos e o mínimo esforço
mas a causa não é boa só nos livros
inclusive
estes precisam de uma casa

--
deivid junio.

25 de agosto de 2008


O imaginário daqueles que sonham, cada vez mais, assimilam entidades um tanto quanto peculiares. Através da assimilação do real, novas imagens gradativamente empatam o imaginário, promovendo a sua total banalização por meio de desejos que refletem o conteúdo morto que está por detrás das vitrines. Não é através da razão - ou qualquer outra faculdade do conhecimento - que nós tracejamos a felicidade, mas justamente é através da imaginação que a felicidade tem o seu corpo definido; talvez seja por isso que a garantia de felicidade oferecida pelo consumo de mercadorias sem-vida consiga inserir, dentre os olhos dos que (não)vêem, uma falsa similaridade com aquilo que há tanto é objeto de desejo da imaginação. É preciso atentar para o fato de que a imaginação não pode se comprouver com o alimento prático-imediato que é dado através de merchandises. Esse paliativo é o vício que atrofia a criatividade: se a imaginação se vende à realidade capital, nada é conseguido além do que já se possuía e é enterrada viva a capacidade de transpor o momento vivido. Os olhos passaram a ser os maiores consumidores e a imaginação o grande depósito de imagens-mercadorias. A felicidade tanto nos é imputada quanto a liberdade, que se restringe tão-somente a escolher o produto de uma falsa identificação. A realidade torna-se ainda mais estreita, e a imaginação e os anseios diurnos dificilmente encherão de ar os seus pulmões num mundo que se tornou demasiadamente poluído.