17 de novembro de 2009

Repúblicas descaracterizam interior de imóveis históricos



Área de moradia estudantil
é adaptada para sediar festas,
uma intervenção que somente
poderia ser feita com autorização
de órgãos responsáveis pelo patrimônio

foto: Euler Junior/EM/D.A Press

Jornal Estado de Minas (Portal UAI)
Luciane Evans
Segunda-feira 16 de novembro de 2009


Por fora, janelas e portas coloniais refletem o passado de Ouro Preto, na Região Central de Minas. Mas, por dentro, os grandes quartos ganharam status e função de boates, com direito a bar, paredes negras e decoração. Pisos de madeira foram substituídos por mais modernos. Cozinhas, com grandes freezers de cerveja, estão mais equipadas que as de apartamentos de luxo.

Quem passa pelas portas das repúblicas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) não percebe o contraste entre o antigo e o novo e ignora a descaracterização dos bens tombados pelo patrimônio público. Levantamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Ministério Público Federal (MPF) em 58 repúblicas mostrou que apenas 11 têm projetos de obras regularizados ou em processo de autorização. E, pior, a maioria das moradias estudantis está localizada no conjunto arquitetônico e urbanístico objeto de tombamento federal e, sendo assim, qualquer obra nos imóveis deve ser submetida ao Iphan para autorização.

“A providência vinha sendo ignorada pelos estudantes com a complacência da universidade”, reclama a procuradora da República Zani Cajueiro. Por causa disso, em junho, os dois órgãos firmaram um termo de ajustamento de conduta (TAC) com a Ufop e nove repúblicas federais. “Os alunos, que são os gestores, fizeram obras para conter infiltrações, aumentaram muros, construíram coberturas, churrasqueiras e até toldos. Um ‘puxadinho’ contemporâneo não se adequa à arquitetura histórica que queremos preservar”, alerta a procuradora.

Das nove repúblicas que assinaram o TAC, quatro estão regularizadas pelo Iphan e cinco em processo de aprovação. Mas elas representam menos de um terço do universo de 58 imóveis federais da Ufop. “Não significa que todas têm irregularidades, mas sabemos que boa parte delas faz intervenções nos imóveis. Por isso, em 2010, vamos apertar ainda mais o cerco e chamar esses alunos para uma conversa. Caso não haja acordo, levaremos o caso ao Ministério Público”, revela o chefe de escritório técnico do Iphan em Ouro Preto, Rafael Arrelaro.

Em 2007, a Ufop alertou os universitários sobre a responsabilidade e importância de não degradar um bem tombado. Naquele ano, foi assinado um termo jurídico entre a universidade e os alunos e ficou acertado que qualquer intervenção deveria ser comunicada à Ufop, que a submeteria à aprovação do Iphan e da prefeitura.

Passados dois anos, o que se vê nos imóveis é o toque contemporâneo embalado por uma casca do passado. As cozinhas estão mais modernas, assim como os banheiros. Há churrasqueiras nos quintais e os cômodos grandes, agora boates, foram pintados de preto e rabiscados com spray fosforescente. Há até scoth bar. “Isso não pode ocorrer. Essas boates estão degradando um patrimônio. Inclusive, deveriam fazer um levantamento de acústica para saber se o som pode danificar a estrutura dos imóveis. É preciso uma recuperação imediata desses bens”, cobra a procuradora da república.

O Estado de Minas conversou com alguns estudantes, que pediram para não serem identificados. Eles afirmaram não precisar de autorização para as reformas, pois elas são feitas na parte interna da casa, e que as intervenções são somente para conservação, não havendo descaracterização do patrimônio.

Fiscalização

Os órgãos competentes, que deveriam manter o controle da situação, alegam não ter condições para exercer as vistorias. “A Ufop não tem como fiscalizar. Cabe ao Iphan identificar e nos notificar. A universidade assume a responsabilidade e abre processo contra o aluno, o que pode gerar advertência, suspensão e até expulsão da universidade”, afirma o pró-reitor administrativo da Ufop, André Lana. Já o Iphan informa que só age após receber denúncias. “Conseguimos fiscalizar as igrejas, por exemplo. Mas em relação às repúblicas é mais difícil. Têm estudantes que aproveitam os fins de semana para fazer as obras”, explica o técnico Rafael Arrelaro.

Mas, para a procuradora, não há dificuldades. “Basta a Ufop organizar um cronograma de vistoria, não é nada complexo. Pode até contratar um estagiário para fazer um comparativo do inventário das casas com a estrutura atual”. Para Terezinha Leite, professora de educação patrimonial de Ouro Preto e moradora da cidade, o grande problema é a limitação das vagas. “Nós, cidadãos, pagamos para que os universitários tenham direito de morar em repúblicas para se dedicarem aos estudos. As boates tiram oportunidade de mais alunos morarem ali”, lamenta.

fonte: http://www.uai.com.br/UAI/html/sessao_2/2009/11/16/em_noticia_interna,id_sessao=2&id_noticia=136146/em_noticia_interna.shtml



5 de novembro de 2009

Repúblicas federais de Ouro Preto são impedidas de fazer festas pagas e vender pacotes de Carnaval

O TEMPO online
04/11/2009 13h19
FERNANDO COSTA
fernando.costa@otempo.com.br

Uma resolução dos Ministérios Público Federal e Estadual determinou que as repúblicas federais de Ouro Preto, na região Central do Estado, estão impedidas de realizar festas pagas e vender pacotes de hospedagem ou de blocos carnavalescos. A decisão afeta somente os estudantes que vivem em repúblicas que pertencem à Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) que, a partir de agora, não podem mais exercer atividades que visam lucro nas propriedades da universidade.

Segundo o promotor Ronaldo Assis Crawford, a situação já era analisada pelas promotorias há pelo menos dois anos. "Depois do estudo do caso, optamos conjuntamente por pedir uma recomendação ao reitor da UFOP. Agora, a universidade tem 40 dias para informar as providências que irá tomar para coibir este tipo de ação", diz o promotor.

Conforme o promotor, a minoria dos alunos que mora nas repúblicas federais estavam tendo privilégios inaceitáveis. "Eles acabam lucrando enquanto ocupam moradias da universidade", explica.

Assis afirma, ainda, que não haverá fiscalização num primeiro momento. "Vamos aguardar as decisões da faculdade e, caso a recomendação não seja acatada, tomaremos outras providências", afirma.

A Universidade Federal de Ouro Preto informou que está promovendo reuniões com os estudantes para discutir as decisões e medidas que serão tomadas.

Disponível em: http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=61254

9 de junho de 2009

Descartem a Juventude

O que dela fizeram,
O que dela fazemos
E o que dela faremos?

Puríssima sofistaria.

23 de abril de 2009

Universidade de Ouro Preto terá de gerenciar moradias







O Ministério Público Federal (MPF) recomendou à Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) a adoção de critérios objetivos de acesso aos imóveis cedidos para moradia estudantil, as chamadas "repúblicas". Entre esses critérios, deverá preponderar a situação socioeconômica daqueles que pretendam residir nos imóveis. Isso quer dizer que os imóveis deverão ser destinados preferencialmente a estudantes carentes.

Segundo denúncias recebidas pelo MPF, a universidade vem conferindo plena liberdade aos estudantes para o estabelecimento das condições de ingresso dos novos moradores nas "repúblicas", as quais acabam resumidas em apenas uma: a submissão do estudante novato a situações degradantes que perduram por até seis meses.

Com isso, muitos dos que realmente dependem dessas moradias acabam se vendo privados do benefício, justamente porque o critério da hipossuficiência não é determinante para a escolha de quem irá usufruir do benefício concedido pela universidade.

Chamada a se manifestar sobre o teor da denúncia, a Ufop confirmou que "são os moradores quem definem as regras de admissão e mantêm a manutenção e a conservação dos prédios (...) Há repúblicas em que os calouros, conhecidos como bixos, têm de cumprir um estágio, chamado de 'batalha', para serem aceitos definitivamente como moradores das casas".

A universidade fez alusão ainda à Resolução CUNI nº 779, editada em conjunto com os próprios estudantes, na qual ficou estabelecido que as residências estudantis, pelo princípio da "auto-gestão", utilizaria critérios próprios de seleção dos novos moradores, "devendo, sempre que possível, priorizar os candidatos mais desfavorecidos economicamente".

Para o MPF, a conduta da Ufop é totalmente ilegal. Os imóveis cedidos aos estudantes são imóveis públicos, de propriedade da União, e sua destinação deve ser sempre para auxiliar estudantes carentes, como é da natureza de qualquer moradia estudantil. Mas o que tem ocorrido em Ouro Preto é um claro desvio de finalidade, atraindo a aplicação do artigo 11 da Lei de Improbidade Administrativa.

"A atribuição para estabelecer as regras de acesso aos imóveis é privativa da universidade, na condição de gestora dos imóveis, que são públicos. Ela não pode se eximir dessa obrigação, atribuindo-a a outrem. É dela o dever de editar os atos normativos e de fiscalizar o seu cumprimento. O ato de delegação dessa responsabilidade aos estudantes é vedado pela ordem jurídica", afirma o MPF.

Direitos humanos - Os mesmos princípios constitucionais que regem os atos administrativos também obrigam a universidade a enfrentar a questão do chamado estágio ou "batalha" a que os calouros são obrigados para terem direito a morar nos imóveis. Ainda que a Resolução 779 tenha apontado o dever de o corpo discente não realizar práticas que violem os princípios da dignidade da pessoa humana, a instituição acaba, na prática, compactuando com os atos que, formalmente, cuidou de vedar. "Considerá-los como prática comum e incorporada aos costumes lícitos vai de encontro ao dever constitucional de agir da Administração Pública, no sentido de impedir a ocorrência de qualquer tipo de atos constrangedores que signifiquem violação aos direitos humanos. O fato de parte da sociedade aceitar e conviver com esses atos não lhes retira o caráter degradante. Tanto é assim que várias denúncias têm chegado ao MPF para que se ponha fim a tais práticas".

Por essa razão, o segundo item da recomendação é para que a Ufop adote procedimento de rígida fiscalização dos estudantes, para "reprimir, na intimidade desses imóveis públicos, a prática de condutas que importem em constrangimento ilegal e que violem flagrantemente o princípio da dignidade humana".

A universidade terá o prazo de 60 dias para atender a recomendação, sob pena de serem tomadas contra ela as medidas judiciais cabíveis.




17 de abril de 2009

Abril vermelho

hoje eu quero fazer um poema
um poema de silêncio impossível
um poema que apague as rosas de pólvora
disparadas na curva do S

um poema de letras vermelhas
um poema que faça memória
capaz de perdurar 19 sonhos
qual velas incansáveis dentro da noite, um poema

um poema que faça suspender a poeira da estrada
a gota d'água que faltava, sejam estes nomes
um fermento para as revoltas
uma semente de mostarda

um poema de nomes a serem plantados no vento
co’a certeza da ressurreição
como um grão de pólen, fecundo
ignorante ao concreto e à rocha
um poema de nomes

João Rodrigues Araújo
Altamiro Ricardo da Silva
Graciano Olímpio de Souza
Amâncio dos Santos Silva
Joaquim Pereira Veras
Abílio Alves Rabelo
José Alves da Silva
Antônio Costa Dias
José Ribamar Alves de Souza
Antônio Alves Cruz
Lourival da Costa Santana
Antônio, ‘Irmão’
Raimundo Lopes Pereira
João Carneiro da Silva
Leonardo Batista de Almeida
Oziel Alves Pereira
Manoel Gomes de Souza
Robson Vitor Sobrinho
Valdemir Ferreira da Silva

um poema que adube
as terras improdutivas
e dissipe os latifúndios da indiferença
que desmanche as cercas manchadas de sangue
que subverta a história na hora incerta, e precisa

um poema de nomes
que perturbe o sono
dos falseadores das lutas dos homens
e mulheres à margem da mesa

um poema simples
que mine a tarde de Eldorado e contamine o mundo
um poema germinado no campesinato pra romper nas cidades
como um grão de pólen
um poema que termine apenas na palavra vida
escrita a mãos impassíveis diante da morte
um poema à vida.

deivid junio.
www.paralelepipedopoema.blogspot.com

19 de março de 2009

Comunidade Ufopiana é convidada a participar de Audiências Públicas sobre moradia estudantil

O Comitê Permanente de Moradia Estudantil (COMEPE) convida toda a Comunidade Acadêmica da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) para participar das Audiências Públicas que acontecem em 24 de março, às 13h, no Cine Vila Rica de Ouro Preto e em 26 de março, às 19h, no Auditório do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), em Mariana.

O objetivo destas reuniões é apresentar as propostas de construção de novas moradias estudantis e debater a forma como as moradias serão geridas.

Segundo o COPEME, a audiência pública é uma das formas de participação e de controle popular da Administração Pública no Estado Social e Democrático de Direito, que leva a uma decisão com legitimidade e transparência.

E ainda, propicia a troca de informações, o exercício da cidadania e o respeito ao processo legal em sentido substantivo.

Fonte: http://www.ufop.br/index.php?option=com_content&task=view&id=4707&Itemid=196
Disponível em 19 de março de 2009.

5 de março de 2009

Uma aula em Nossa Defesa...

Esse texto tem como pretensão demonstrar que o texto escrito pelo profº do curso de direito da UFOP, Cláudio Henrique, postado em seu blog: http://ribeirodasilva.pro.br/blogdobigus-09-02-20-direita-esquerda-movimento-estudantil-ufop-republicas.html, embora tente se valer de uma argumentação sólida com coerência lógica entre seus argumentos, não possui validade, pois na extrema maioria das suas conclusões se utiliza de premissas falsas.Convém notarmos, inicialmente, que o professor lança mão de termos apelativos e comuns, para defender seu texto e descaracterizar o Movimento que objetiva, entre outras coisas, estranhamente, a democratização de um espaço público de propriedade da União. No texto do profº Claúdio estão presentes conceitos como: direita, esquerda, anti-repúblicas, liberdade, vilãs, destruição, excludente, preconceito, ódio, discriminação, eliminação, desumanização, homofobia.Tentarei elaborar um texto sem tantas palavras ressonantes e clichês, porém com premissas válidas e bem concluídas.A primeira premissa que merece a adjetivação de falsa é aquela que caracteriza o movimento como “anti-república”.Uma elucidação que se faz necessária é a de que o Coletivo Amar e Mudar as Coisas – em nome do qual me pronuncio aqui – não é um movimento anti-república, talvez houvesse uma maior felicidade do professor se o acussasse de movimento anti-repúblicas federais, mas nem por isso estaria correto; pois o Coletivo não possui discordância com repúblicas, nem com os moradores destas, mas sim contra o sistema de seleção e permanência utilizado pelos seus usuários e normatizado pela Universidade.A segunda elucidação tentara desmentir a afirmação de que o Coletivo opta pela seleção socioeconômica excluindo a co-existência de qualquer outro critério. Creio que isso jamais foi dito ou escrito por qualquer individuo que se reivindique participe desse agrupamento - gostaria muito de ser convencido do oposto. Para que não fiquemos apenas em uma troca de argumentos paradoxais e vazios, citarei uma situação concreta, onde essa conduta foi demonstrada. O caso em questão diz respeito ao processo de elaboração do Estatuto das Repúblicas Federais de Mariana, onde o acesso às moradias pela a seleção socioeconômica foi defendido incansavelmente pelos integrantes do Coletivo, porém que a permanência fosse normatizada por outros critérios, dentre os quais estão inclusos os da preservação e respeito do espaço público que representam as repúblicas federais de Mariana e a inexistência de qualquer brincadeira humilhante, sejam elas, trotes. Outro ponto do discurso do profº ao qual convém me ater é quando este diz que entre nossas reivindicações figura: [...]”a destruição da cultura republicana” [...]Gostaria muito que o professor provasse que essa afirmação fora feita por um dos membros do Coletivo! Nós defendemos que qualquer generalização sempre possui caráter preconceituoso e prejudicial, prova disso é que jamais criticamos a tradição de retorno dos ex-alunos as casas. A concordância com esta prática é em tal grau, que a copiamos e comumente presenciamos o retorno dos militantes do Coletivo a nossas residências, onde são muito bem recebidos, nos contam histórias e quase sempre contribuem com soluções para impasses que temos.Felizmente é necessário que nos posicionemos contra algumas práticas do atual sistema, pois do contrário não seríamos um Movimento a propor mudanças, porém falar em destruição de uma cultura é um pouco exagerado - a considerar as postagens realizadas na comunidade da UFOP e outros pronunciamentos públicos. Felizmente é necessário que nos posicionemos contra algumas práticas do atual sistema, pois do contrário não seríamos um Movimento a propor mudanças, porém falar em destruição de uma cultura é um pouco exagerado - a considerar as postagens realizadas na comunidade da UFOP e outros pronunciamentos públicos.A dissertação que o professor elabora no primeiro parágrafo do capítulo que trata de “igualdade e pluralismo” parece atentar contra o próprio sistema que defende. Explico: práticas como a planificação de opiniões e comportamentos, são características do sistema de permanência da maioria das.moradias da UFOP/OP e é este um dos motivos que causa a oposição do nosso movimento.A respeito da acusação de que seriamos preconceituosos, gostaria de tecer algumas reflexões. Ao se referir sobre uma imagem que se encontra no BLOG do Coletivo – especificamente, uma imagem que retrata um primata com uma placa no pescoço, com os dizeres: “Conheça a tradição federal do sadismo! Sou primata, sou feliz!”. Primeiramente, o Prof. Cláudio, nos acusa de “retratar os republicanos como primatas”. Certamente cometemos um enorme erro ao comparamos os primata aos “republicanos”; cabe ressaltar, um enorme erro com os primatas, afinal, não podemos afirmar sobriamente que os primatas pratiquem atos sádicos, como trotes, contra os seres da mesma espécie, até mesmo porque o sadismo é um ato estritamente humano. Com isso podemos concluir, contra a acusação de desumanização, que não estamos desumanizando os “republicanos”; muito pelo contrário, nós estamos humanizando-os, uma vez que o sadismo é um conceito aplicado puramente aos humanos – humanos com algum desvio de comportamento, é claro.Adiante, o Prof. Cláudio também afirma: “Se usassem tal imagem para representar cidadãos de origem afro-brasileira, possivelmente estivessem presos. Talvez, o próprio autor do desenho visse nisso algum preconceito.” O argumento do Prof. Cláudio foi utilizado claramente como uma tentativa de nos promover como racistas. Entretanto, devemos nos atentar ao fato de que é o próprio Prof. Cláudio que alude – quem sabe, inconscientemente - uma possível semelhança entre os afro-descendentes e o desenho do primata, uma vez que em nenhum momento fora feita alguma referência preconceituosa relativa aos afro-descendentes, visto que o desenho tem o propósito único de satirizar os trotes praticados, impunemente, em algumas das repúblicas federais de Ouro Preto. Diante dos prováveis equívocos do Profº Cláudio Henrique, cabe aconselha-lo a dosar suas palavras de acordo com o conhecimento que possuí do movimento estudantil ufopiano; e se, acaso, houve uma má-fé do professor, culminando na tentativa de denegrir o Coletivo Amar e Mudar.as Coisas, com mentiras e análises tendenciosas – como em outrora se fez com o Movimento pela Democratização da Moradia Estudantil, o MDME –, está exposto uma versão da história que tenta se desvencilhar das armadilhas ideológicas na intenção de auxiliar o leitor a formar uma opinião coerente a respeito do ME da UFOP.

23 de fevereiro de 2009

Entrevista: O trote nas universidades

Entrevista feita pelo Canal de Notícias "Causa Operária".

“O trote é fundamental para formar uma falange política coesa e obediente que vai fazer aquilo que as pessoas que estão no topo da hierarquia mandam”

Publicamos nesta edição uma entrevista exclusiva com Oriowaldo Queda, professor titular aposentado e Antônio Ribeiro de Almeida Jr. da ESALQ (Escola de Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP) da área de Mídia e Ambiente que escreveram juntos dois livros sobre o trote universitário, relatando com dados históricos e atuais qual a relação do trote com as direções das universidades e como, por meio do trote, é formado um conjunto de estudantes que vai defender os interesses da burocracia

23 de fevereiro de 2009

C.O.: Vocês poderiam se apresentar e nos dizer a linha de pesquisa que desenvolvem dentro da ESALQ e o que impulsionou vocês a fazer esta pesquisa sobre o trote que está nos livros Trote na ESALQ e Universidade, Preconceitos e Trote?

Oriowaldo Queda: Eu sou professor titular aposentado da ESALQ e inicialmente eu trabalhava e passei toda a vida acadêmica trabalhando com extensão e sociologia rural. Atualmente eu trabalho no centro universitário de Araraquara no mestrado chamado desenvolvimento regional e meio ambiente, mudei um pouco, continuo trabalhando com agricultura, mas também com a questão ambiental.
Sobre a questão do trote, eu sempre tive uma posição muito clara e contrária ao trote, mas talvez nunca tivesse me manifestado claramente. Ficava uma dúvida muito grande na minha cabeça, pois as pessoas tratavam como uma brincadeira, e como brincadeira era perfeitamente aceitável e assimilável. Eu tinha uma idéia que o trote era sempre uma violência e as coisas não batiam. Então tive a idéia, no curso de sociologia e extensão, de atribuir um ponto a mais na média da disciplina, se os alunos me respondessem citando três práticas que eles considerassem violentas e três que considerassem brincadeiras. E eu queria que eles descrevessem essas práticas. Com isso, eu acumulei quase dois mil resultados dessas perguntas com os alunos e fui acumulando até o dia em que o professor Antônio Almeida chegou para trabalhar na ESALQ e quando falei desse material ele mostrou bastante interesse e começamos a ler, conversar e discutir como é que apresentaríamos o trote como um ritual de extrema violência, de débeis mentais que ficam aprovando e o mais gozado, mais triste, é que as pessoas, a “mídia” acabam incorporando o trote como uma brincadeira passageira. E os professores, não diria que é a maioria, acabam incorporando isso (diretores, reitores). E a necessidade do livro foi mostrar que nada disso é verdadeiro, o trote é uma tradição de barbárie, quer dizer, nas suas origens é um instrumento extremamente discriminador entre as pessoas.

Antônio Almeida: Sou professor da ESALQ desde 2001, a minha trajetória é mais ligada à pesquisa de “mídia” e ambiente, e tenho alunos monitorando vários órgãos de “mídia” a respeito da questão ambiental. Quando eu cheguei à ESALQ fiquei surpreso. sou engenheiro agrônomo formado aqui. A situação do trote me pareceu pior que no período em que estudei na década de 80. Agora com um número maior de participantes e com práticas mais expostas, à luz do dia, acontecendo na rua, dentro do campus. E isso me incomodou bastante, me pareceu de uma forma bem ingênua que eu nunca tinha me preocupado como sociólogo. Tinha vivenciado o período de trote aqui e as relações que o trote estabelece aqui com o aluno, mas nunca tinha feito uma reflexão sociológica sobre isso. Comecei uma investigação lendo esses documentos que o professor Oriowaldo Queda fez referência e comecei a entrevistar alunos. O que é um elemento curioso e que faz parte das nossas explicações hoje sobre o trote, é que este ocorre dentro da universidade, diante de toda a intelectualidade brasileira. Essa intelectualidade faz declarações na “mídia”, sem nenhum tipo de responsabilidade porque não há pesquisa. Então o sujeito é pesquisador antropólogo, pesquisa índios e outras situações, e jamais fez uma investigação sobre o trote e dá declarações nos órgãos de “mídia” falando coisas absurdas sobre o trote

C.O.: Esta tradição do trote, que é em geral violento, surgiu quando e, na sua opinião, a que está relacionado?

Antônio Almeida: Trote, para nós, é igual à violência.

Oriowaldo Queda: Chegamos ao seguinte: aceitar o trote como um rito de passagem... a gente no começo até pensou que poderia ser uma explicação, mas descartamos porque na verdade ele não integra. Mas a integração necessariamente não ocorre. É o que o Antônio já disse, em vez de ser um mecanismo de integrar os alunos, ele segrega.

Antônio Almeida: O trote divide os alunos do campus, uma parte dos alunos não trotista e outra parte dos alunos integrados ao grupo trotista. Então, quando aplicamos os questionários, foram mais de dois mil, aqui com os alunos. No momento em que eles entram na universidade a distribuição é quase que homogênea das posições deles em relação a vários assuntos, e após o período de trote, a distribuição não é mais normal e sim de uma maneira bimodal, quer dizer, os alunos que estavam distribuídos de uma forma mais ou menos homogênea se agrupam em dois extremos. Ou seja, o trote divide o campus, divide os alunos causando problemas em sala de aula. Você tem dentro da sala de aula aqueles que não conseguem conversar, trabalhar, ou mesmo falar em função dessa divisão causada pelo trote.

Oriowaldo Queda:Tem o aspecto do poder e a questão das outras disciplinas, que é a psicologia e a política. E acho que o Antônio poderia completar para fornecer como é que os nossos argumentos teóricos e a dificuldade que tínhamos eram de desmontar esses argumentos, que as três áreas, antropologia, psicologia e política, apontavam para a necessidade do trote. Como é que os alunos são trabalhados, e a maioria dos alunos não se dá conta disso, de como são manipulados pelas direções da faculdade, reitorias e pelos professores trotistas. E o seguinte, jamais os trotistas criticam a instituição.

Antônio Almeida: Tem um processo de formação dessa violência institucional, a violência dentro da universidade, da empresa. O processo começa com o “bullying” na escola, a criança mal chegou e já recebe um apelido, se ela é um pouco diferente já tem gozação. Isso aí se manifesta muito claramente no trote e depois dentro da empresa vai se manifestar nas várias formas de assédio moral, que são formas de assédio, eu diria, fundamentais para estruturação para exploração do trabalho tal qual a gente tem hoje na sociedade em que vivemos. As pessoas se iludem, elas acham que o trote acaba no primeiro ano. Não, para você pertencer ao grupo trotista nos lugares onde este é importante, que são nas escolas que controlam certos setores da economia, como a ESALQ, por exemplo, é fundamental para um setor inteiro da economia, da agricultura e da agropecuária. Outro exemplo é a Universidade Federal de Ouro Preto, que é absolutamente fundamental para um setor todo de mineração e etc. Sobre essas escolas, pesa um controle ideológico tremendo e esse controle ideológico começa a ser exercido no trote. É no trote que se testa quem aceita submissão, que depois, no segundo ano, para pertencer ao grupo, você precisa dar trote. Então tem muitos alunos que passam por todos os trotes no primeiro ano e depois não conseguem dar o trote no segundo ano e são marginalizados pelos trotistas.

C.O.: Quando surgiu o trote?

Antônio Almeida: O trote é muito antigo. Platão já faz referências ao trote entre os alunos que entram para a academia. A origem, eu diria, são os ritos de passagem das sociedades sem escrita, vem de muito longe.

C.O.: E nas universidades brasileiras?

Antônio Almeida: O primeiro caso de morte é de 1831, em uma escola de direito no Recife.
As tragédias são mostradas como se fossem um raio num céu azul. Como alguém que exagerou. E quem exagerou foi sempre o aluno do primeiro ano. Aqui eu tenho o dado da primeira morte registrada no Brasil por trote, foi o estudante Francisco Cunha Menezes, que foi morto por Joaquim Seraquiel de Carvalho, em Recife em 1831.

C.O.: Os cursos das áreas de biológicas e agronômicas como aqui na ESALQ têm maior incidência destes casos?

Oriowaldo Queda: Acho que não são bem as biológicas. São geralmente as faculdades que serviram como base para a montagem das universidades no Brasil. Medicina, Engenharias e Direito. Não é porque é da área de exatas. O trote no curso de direito é um dos mais perversos que se possa imaginar. A gente também achava que as humanidades seriam indiferentes a essas coisas. O que não é verdade. O trote é uma violência que ocorre em todos os âmbitos da ciência, mas principalmente nessas três áreas Engenharia, Medicina e Direito. E não é por acaso que são essas as áreas que fornecem a maior parte do que podemos chamar de “elite brasileira”. E com todas essas deformações do trote...

C.O.: São áreas inclusive onde a concorrência é enorme. Em cursos como Medicina, Direito e Agronomia, a classe social majoritária são estudantes da pequena-burguesia e da burguesia.

Antônio Almeida: Sim. São estudantes que vêm das classes mais abastadas, aquelas que têm formação. No Brasil, nós sabemos, não estou dizendo nenhuma novidade, que as escolas públicas de uma forma geral são muito ruins. É a escola privada que vai fornecer para a maior parte destes alunos que cheguam às melhores universidades e que superam os vestibulares mais concorridos
A universidade quer o trote, aí é que está o problema. Há muitos professores e dirigentes que querem o trote. Primeiro para formar uma falange política dentro da universidade. Uma falange que apóie as propostas conservadoras e que apóie esses dirigentes conservadores. Portanto, uma das coisas que está presente no trote é a idolatria da instituição. Nós temos fotos de alunos ajoelhados diante do fundador da escola, fazendo reverência. Esta louvação da instituição é uma forma de garantir que a universidade não seja prejudicada de forma alguma. A falta de pesquisa revela isso. Eu sou pesquisador da Universidade de São Paulo e não posso criticar a USP. Se eu não posso falar de trote na Universidade de São Paulo porque isso vai atacar a sua imagem, eu também não posso falar do trote na Unicamp, não posso falar do trote nas federais e não posso falar do trote nas escolas privadas. Como um professor da USP vai criticar a Unicamp? Como este professor vai criticar uma federal? O professor da USP deveria falar da sua própria instituição, mas você não pode criticar a sua própria instituição.
As vítimas do trote entram com um processo na Justiça geralmente contra os agressores de alunos. Raramente há processos contra a direção da universidade. Estes processos devem ser dirigidos ao agressor, mas também à direção que permite, cria, estimula e acoberta o trote.

C.O.: No dia 23 de fevereiro completam-se dez anos da morte de Edison Tsung Chi Hsueh, o calouro de Medicina da USP encontrado morto em uma piscina após um trote. Mesmo assim, os trotes no curso continuam. Você conhece outros casos parecidos com este?

Antônio Almeida: Muitos. Um caso em Osasco é bastante extremo. O menino não era universitário, na verdade era um aluno da 8ª série que estava entrando no ensino médio. Ele era um aluno grandão, foi então para a sala de aula quando tentaram cortar o seu cabelo. Ele se recusou, pois finalmente não era nem ingressante universitário. Acabou levando três tesouradas no peito e foi para o hospital, de onde foi liberado. Depois teve uma hemorragia e morreu.

C.O.: A reitoria da USP é complacente com estas ações do trote, no entanto, abre inquérito policial contra estudantes que protestaram contra uma medida do governo, como os que ocuparam a reitoria em 2007. Qual a diferença que é dada no tratamento destes casos envolvendo o trote com o tratamento dado ao movimento estudantil quando este se mobiliza?

Antônio Almeida: Existe um critério ético básico que é julgar todos os fatos com os mesmos pesos e medidas. O problema é que em um caso você está julgando inimigos políticos, porque o movimento estudantil é considerado inimigo por estar questionando o papel da universidade, a sua direção e as estruturas de poder que existem dentro dela. E do outro lado você tem um aliado político em julgamento. Neste caso os pesos e medidas são diferentes. Em um caso vale o vídeo em outro não vale, em um caso usa-se a confissão em outro caso não se usa. São utilizadas duas medidas e duas formas de julgar as coisas.

Oriowaldo Queda: Basta que qualquer movimento ou ação de alunos e funcionários que coloque em dúvida o que está ocorrendo na universidade, e que é responsabilidade do Conselho Universitário ou do diretor da escola e não se permite que isto se torne público, o fato é abafado. Se alguém disser que a universidade está obtendo recursos de grandes empresas e redirecionando a pesquisa, contestar que existe recurso para o agronegócio, mas não há recurso para a agricultura familiar ou para a agricologia, as pessoas tornam-se um inconveniente para a reitoria ao exercitar este tipo de ação.
Causa Operária: O trote prepara os estudantes que vão defender a universidade independente do que ela faça?

Antônio de Almeida: O trote é fundamental para formar uma falange política coesa e obediente que vai fazer aquilo que as pessoas que estão no topo da hierarquia mandam.

C.O.: Muitos estudantes acham que a universidade seria um corpo neutro no meio da sociedade.

Antônio Almeida: No trote você tem um microcosmos social. No trote estão todos os fenômenos sociais envolvidos como os de mando, exploração, preconceito, violência etc. É muito rico estudar o trote.

C.O.: Vocês citaram em um artigo que “o trote pode ser entendido como uma porta de entrada para formas perversas de corporativismo”. Vocês podem explicar melhor isso?

Antônio Almeida: Estas corporações controlam a porta de entrada para mercados e a universidade produz pessoas que têm, de certa forma, uma reserva de mercado onde o estudante não precisa competir com os trabalhadores que não têm o mesmo nível de instrução. Estas corporações são agressivas, violentas e tem um comportamento muito parecido com aquilo que a gente chama de máfia.

C.O.: Em outro trecho diz que “ao atacar o trote devemos ter em conta que os alunos são apenas soldados de uma hierarquia que conta também com generais”. De que maneira vocês acham que seria possível mudar esta questão do trote se persistir a mesma estrutura de poder na universidade?

Antônio Almeida: O trote por definição é encarado como brincadeira e as pessoas que estão questionando esta definição são interpretadas como erradas. Não somente o Ministério Público, mas os movimentos de esquerda tratam como uma coisa irrelevante. Os movimentos sociais acham que este não é assunto para se preocupar, mas este é um assunto que está na raiz de outros problemas porque é a forma de recrutamento para diversas coisas.

C.O.: As mulheres são muito subjugadas?

Antônio Almeida: Aparentemente, o trote é mais leve para elas, mas só aparentemente. Elas fazem papel de subordinada, é como se as mulheres sequer pertencessem ao grupo que merecesse receber o trote.
Aquelas que são completamente “trotistas” têm destaque. Essas é que vão pegar as outras meninas nas repúblicas e falar para elas tirarem as roupas e fazer “piadas” do tipo: “seu seio está muito grande e precisa de uma plástica; sua bunda está caída e é preciso colocar um macaco mecânico para levantar. Elas, por serem subjugadas pelos homens, acabam realizando práticas mais dolorosas com as outras mulheres.

C.O.: Como o trote pode afetar a formação do estudante e a profissão dele?

Antônio Almeida: O trote é algo autoritário e o aluno vai sendo inserido nesse contexto, você está criando um universitário, mas na verdade é um bruto. Então o bruto age como for necessário, desmatando, coagindo, expulsando, liquidando o obstáculo que faça avançar os projetos que ele pretenda implementar, do Estado, da empresa etc.

Oriowaldo Queda: O aluno de primeiro ano não é nada, segundo a visão do trotista, é colocado na situação de um mendigo. Quando um mendigo aparecer no hospital ou no pronto socorro em que o trotista faz plantão, como ele será tratado? É lamentável a universidade brasileira utilizar tantos recursos para fazer uma coisa tão pobre. Não falo apenas da universidade pública porque na universidade privada fazem a mesma coisa.
Não é só no Brasil, no mundo inteiro, o trote está se tornando um problema cada vez mais sério. Os Estados Unidos são um país onde a questão do trote é terrível. O número de mortes que tem lá se tornou um problema social sério. No ano 2000 houve 19 casos de morte por causa de trote registrados no país.

Antônio Almeida: Na Inglaterra apareceram imagens de alunos dando trotes, enfiando saco plástico na cabeça das pessoas. Isso na Inglaterra. Não é um caso específico de violência no Brasil, por ser trote, ele é violento em qualquer parte do mundo.

Oriowaldo Queda: O trote é muito conhecido no Exército também. O Glauco Matoso, que fez uma pesquisa histórica ampla sobre o trote, disse que existe uma correlação entre os trotistas na universidade e os torturadores. Segundo ele, a ditadura recrutou torturadores não só nas forças militares, mas também entre os universitários ligados ao trote.

C.O.: Neste início das aulas muito foi falado do trote, que machucou muitos jovens. Em que medida você considera que esta burocracia universitária, que em grande parte compartilha destes atos, fará algo para de fato inibir estas ações? Não pode ser um pretexto para o aumento da repressão e perseguição ao movimento político dos estudantes?

Antônio Almeida: Eu diria que é o contrário. Tem um procedimento clássico das universidades, que é abrir sindicância e apurar os fatos para punir e expulsar. Quase todas as sindicâncias resultam em não punição, mesmo o caso do Edson Tsung Chi Hsueh que havia uma moção do Conselho Universitário dizendo que os alunos envolvidos no trote deveriam ser punidos. Quando a universidade pune, o processo é rápido, em poucos dias os alunos estão suspensos ou expulsos, independente de sindicâncias. Eu diria que pune em menos de um mês. Eu participei de uma reunião que estavam discutindo essas medidas e a tentativa é juntar todas as ocorrências. Proíbem o trote, proíbem qualquer tipo de bebida, proíbem festas e qualquer manifestação política.
Então isso pode ocorrer sim, a burocracia universitária utilizar essas medidas para atingir outros objetivos além da questão do trote.

Antônio Almeida: De uma forma geral, onde o trote é forte e recorrente, quase que certamente tem o apoio da direção e dos professores da instituição. Onde esse apoio não existe, onde de fato a instituição condena o trote, eu diria que dificilmente uma cultura trotista vai se instalar.

C.O.: Como ocorre esse apoio?

Antônio Almeida: Apoio financeiro. No caso da ESALQ, por exemplo, há fundações que todos os anos acabam dando dinheiro para os trotistas para produzirem cartazes, camisetas e materiais impressos. A direção tenta evitar os escândalos, acobertando os fatos, impedindo a imprensa de ter acesso ao que acontece, ocultando da própria comunidade.

C.O.: Eu queria agradecer e perdir se vocês tiverem alguma consideração final, alguma observação para fazer.

Oriowaldo Queda: Eu acho que seria bom averiguar a questão dos trotes entre os trabalhadores. Ver em alguns sindicatos se a questão dos trotes faz parte da preocupação deles.
Pois se houver sindicatos que se manifestam contra o trote por causa das razões que comentamos aqui e no livro, a reitoria e diretoria não seriam como são.


19 de fevereiro de 2009

Sobre o projeto de cotas para meia-entrada


Meia-entrada ilimitada para todos os estudantes!!! Nenhum direito a menos!!!

A juventude vive num verdadeiro fogo cruzado aos seus direitos. Com a constante alta em preços e tarifas que vem assombrando a classe trabalhadora no mundo todo, os jovens sentem na pele esses ataques através das recentes ameaças de aumentos nas passagens de ônibus, com o problema da insegurança nas escolas e com o reajuste das mensalidades nas universidades particulares.
Não bastasse tudo isso, foi aprovado, no dia 09/12, por unanimidade, pela comissão de educação cultura e esporte do senado, o projeto de Lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que impõe uma vergonhosa cota de 40% para venda de ingressos destinados à meia-entrada.
A idéia é limitar a entrada em cinemas, teatros e eventos culturais de estudantes. Pelo projeto, os estudantes do ensino básico e superior só terão direito a desconto em 40% dos ingressos disponíveis nas bilheterias. Este percentual na realidade é ainda menor, pois essa quantia é também reservada para os idosos.
O grande problema disso tudo não tem haver simplesmente com o fato de não haver como fiscalizar o cumprimento desta taxa proposta, como diz a UNE, mas sim de que existe uma movimentação clara por parte do congresso de corruptos e mensaleiros de retirar um direito histórico dos estudantes para favorecer os empresários da indústria do entretenimento.
Além do mais, esse projeto tem um caráter profundamente excludente, pois os estudantes filhos de trabalhadores e estudantes trabalhadores precisam da meia-entrada para ter acesso a eventos culturais.


Governo Lula intervém na autonomia do movimento estudantil via Casa da Moeda
Uma manobra durante a votação das cotas demonstra que o interesse do governo e dos senadores, além de retirar direitos da juventude, é o de interferir na autonomia do movimento estudantil. Um dos ajustes dos senadores ao projeto de lei é o de que a Casa da Moeda passe a emitir as carteiras estudantis. Um verdadeiro absurdo que passa por cima da lei 7.398 do grêmio livre e que “contempla” os interesses financeiros que existem por trás da defesa de maior fiscalização por parte da direção majoritária da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Qual o interesse da direção Majoritária da UNE?
A direção majoritária da UNE vem defendendo nos meios de comunicação uma posição em favor de maior regulamentação da emissão de carteiras, pois, de acordo com sua presidente, Lucia Stumpf “apenas o controle sobre a emissão e distribuição de carteiras limitaria a venda de meia-entrada a cerca de 30% a 40% da bilheteria, sem a necessidade de cotas. Isso porque, atualmente, com a facilidade de falsificação, a maioria dos que pagam meiaentrada não são de fato estudantes”. (Folha Online 25/11/2008)
Na verdade, o verdadeiro interesse da UNE com a regulamentação das carteiras de estudantes são os milhões que podem ser gerados através do monopólio da entidade sobre a emissão das carteiras via casa da moeda.

Meia-entrada restrita quando desemprego entre jovens é três vezes maior do que entre adultos?!

Um estudo divulgado em maio deste ano pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) detalha uma realidade que os jovens já percebem, na prática: a falta de emprego. Segundo pesquisa do IPEA, o desemprego entre jovens de 15 a 24 anos é 3,5 vezes maior do que entre os trabalhadores considerados adultos, com mais de 24 anos. O índice de desemprego entre os jovens é de 19%, aponta a pesquisa, a maior dos anos pesquisados: 18% (2000), 11% (1995), 7% (1990) e 6% (1985).
De acordo com o estudo, o desemprego é maior entre os jovens porque a demissão desses trabalhadores tem um custo mais baixo para as empresas e porque, por terem menos experiência,podem ser considerados menos "essenciais".

13 de fevereiro de 2009

As fantasias ou atos sádicos podem envolver atividades que indicam o domínio do indivíduo sobre a vítima. É o sofrimento da vitima que causa a excitação sexual do sádico.

5 de fevereiro de 2009

A Moradia

Sobre a Moradia Estudantil Federal em Ouro Preto


A MORADIA

Qual de nós não abriria largamente a sua boca para criticar os rumos tomados pelas políticas parasitárias do nosso país? Qual de nós, estudantes, não se envergonharia por legitimar e se calar ante os crimes descarados praticados diariamente contra nossa terra e contra o nosso povo? E, no entanto, surge o paradoxo evidente: qual de nós ficaria verdadeiramente corado de vergonha por censurar toda essa visível devassidão, enquanto pratica os mesmos atos outrora criticados?

Nossa crítica ecoa para além de nós mesmos, numa tentativa fracassada de legitimar e disfarçar as delinqüências que nós cometemos. Podemos corretamente, num momento de epifania, encher nossos pulmões com a fumaça mais banal, e criticarmos com a voz mais exasperada todas as barbáries políticas já cometidas. Porém, jamais poderemos deslegitimar e escancarar as sutilezas cometidas por nós. Jamais poderemos criticar, de forma honesta e verdadeira, a utilização indevida do espaço público, tal como acontecem na maioria das Repúblicas Federais em Ouro Preto: jamais poderemos criticar essa estupidez carnavalesca, esse empreendimento tão mascarado, que engolimos a seco por causa da tal tradição encravada temporalmente, e que somente à fina flor da elite interessa.

Diante disso, qual a verdadeira legitimidade de criticarmos escancaradamente as violações ocorridas num país onde os pobres perdem cada vez mais os seus direitos, num país onde silenciosamente retiram-lhes a chance de participarem de uma estrutura social que lhes permitiria sair da miséria, tanto material quanto intelectual se, aqui mesmo em Ouro Preto, negligenciamos, usurpamos e aproveitamos indevidamente aquilo que deveria dar a assistência aos que verdadeiramente necessitam. Portanto, diante de tantas contradições, ou nós aceitamos que participamos da opressão e nos recolhemos ao silêncio, ou então enfrentamos o paradoxo, pois só estaremos cônscios de nós mesmos se estivermos realmente dentro do mundo.


OCUPE A MORADIA ESTUDANTIL FEDERAL DA UNIVERSIDADE PAGANDO O PREÇO QUE SUAS CONDIÇÕES PERMITIREM E SEM SUBMETER ÀS HUMILHAÇÕES DOS TROTES, POIS É SEU DIREITO!

5 de outubro de 2008

Manifesto Situacionista

Uma nova força humana, que a estrutura existente não poderá dominar, cresce dia a dia com o irresistível desenvolvimento técnico e a insatisfação de seus usos possíveis em nossa vida social carente de sentido.

A alienação e a opressão nesta sociedade não podem ser mantidas sob qualquer uma de suas variantes, mas somente rejeitadas em bloco com esta mesma sociedade. Todo progresso real fica evidentemente em suspenso até a solução revolucionária da crise multiforme do presente.

Quais são as perspectivas de uma organização da vida em uma sociedade que autenticamente "reorganiza a produção sobre as bases de uma associação livre e igual de produtores"? A automatização da produção e a socialização dos bens vitais reduzirão cada vez mais o trabalho como necessidade exterior e proporcionarão, finalmente, a liberdade completa para o indivíduo. Livre assim de toda responsabilidade econômica, livre de todas as dívidas e culpas para com o passado e o próximo, o homem disporá de uma nova mais-valia incalculável em dinheiro porque é impossível reduzi-la para a medida do trabalho assalariado: o valor do jogo, da vida livremente construída. O exercício de tal criação lúdica é a garantia da liberdade de cada um e de todos na estrutura da única igualdade garantida contra a exploração do homem pelo homem. A liberação do jogo é a autonomia criativa, que supera a velha divisão entre o trabalho imposto e o ócio passivo.

A igreja queimou noutros tempos os pretensos feiticeiros para reprimir as tendências lúdicas primitivas conservadas nas festas populares. Na sociedade hoje dominante, que produz massivamente tristes pseudo-jogos da não-participação, uma atividade artística verdadeira é forçosamente classificada no campo da criminalidade. É semiclandestina. Surge na forma de escândalo.

Que é isso, de fato, mais que a situação? Se trata da realização de um jogo superior, que mais exatamente é provocada pela presença humana. Os jogadores revolucionários de todos os países podem reunir-se na Internacional Situacionista para começar a sair da pré-história da vida quotidiana.

A partir de agora, propomos uma organização autônoma dos produtores da nova cultura, independentes das organizações políticas e sindicais que existem neste momento, pois questionamos a capacidade delas de organizar outra coisa que a manutenção do que existe.

O objetivo mais urgente que estabelecemos a tal organização, no momento em que deixa o estágio inicial experimental para uma primeira campanha pública, é a tomada da UNESCO. A burocratização, unificada em escala mundial, da arte e de toda a cultura é um fenômeno novo que expressa o profundo parentesco dos sistemas sociais coexistentes no mundo, sobre a base da conservação eclética e a reprodução do passado. A resposta dos artistas revolucionários a estas novas condições deve ser um novo tipo de ação. Como a existência mesma desta concentração administrativa da cultura, localizada em uma construção única, favorece o roubo por meio do golpe e como a instituição é completamente destituída de qualquer senso de uso fora de nossa perspectiva subversiva, nos achamos justificados diante de nossos contemporâneos para tomarmos tal aparato. E o faremos.

Estamos decididos a nos apossarmos da UNESCO, mesmo que por pouco, já que estamos seguros de fazer disso rapidamente uma obra que permanecerá, para esclarecer uma longa série de perguntas, como a mais significativa.

Quais deverão ser os principais caracteres da nova cultura e como ela se compararia com a arte antiga?

Contra o espetáculo reinante, a cultura situacionista realizada introduz a participação total.
Contra a arte conservada, é um organização do momento vivido diretamente.
Contra a arte parcelar, será uma prática global que se dirija ao mesmo tempo sobre todos os elementos utilizados. Tende naturalmente a uma produção coletiva e, sem dúvida, anônima (pelo menos na medida em que, ao não estar as obras armazenadas como mercadorias, tal cultura não estará dominada pela necessidade de deixar traços). Suas experiências se propõem, como mínimo, uma revolução do comportamento e um urbanismo unitário, dinâmico, suscetível de estender-se ao planeta inteiro; e de ser prolongado seguidamente a todos os planetas habitáveis.

Contra a arte unilateral, a cultura situacionista será uma arte do diálogo, uma arte da interação. Os artistas – com toda a cultura visível – chegaram a estar completamente separados da sociedade, do mesmo modo que estão separados entre si pela concorrência. Mas antes inclusive deste corredor sem saída do capitalismo, a arte era essencialmente unilateral, sem resposta. Superará esta era fechada do primitivismo por uma comunicação completa.

Ao ser, em um estágio avançado, todo mundo artista, isto é, inseparavelmente produtor-consumidor de uma criação cultural, se assistirá a dissolução rápida do critério linear de novidade. Ao se tornar todo mundo, por assim dizer, situacionista, se verá a uma inflação multidimensional de tendências, de experiências, de "escolas" radicalmente diferentes e isto não já sucessivamente, mas simultaneamente.

Inauguramos agora o que será, historicamente, o últimos dos ofícios. O papel de situacionista, de amador-profissional, de anti-especialista, é ainda uma especialização até o momento da abundância econômica e mental no qual todo mundo se tornará "artista", num sentido que os artistas não alcançaram: a construção da própria vida. Entretanto, o último ofício da história é tão próximo da sociedade sem divisão permanente do trabalho, que quando aparece, seu estado de ofício foi negado.
Aos que não nos compreenderam bem dizemos com um irredutível desprezo: os situacionistas, de quem vocês acreditam serem os juízes, vos julgarão um dia ou outro. Esperamos vocês no momento crucial que é a inevitável liquidação do mundo da escassez, sob todas as suas formas. Estes são nossos fins e serão os fins futuros da humanidade.

Internationalle Situationniste nº 4, 1960

5 de setembro de 2008

Epílogo da ocupação

Para que a Universidade se consolide como uma instituição democrática é necessário que congregue no seu seio todos os seguimentos que constitui a sociedade, independente de cor, etnia, sexualidade ou classe social, e mais do que isso é necessário que garanta a permanência e igualdade de oportunidades desses grupos a fim de possibilitar a todos o acesso a cultura e ao conhecimento.

Sabemos que a assistência estudantil, bem como o acesso de todos à universidade, é uma das principais bandeiras defendidas pela história do movimento estudantil. Somente quando estiver assegurado o acesso à cultura e ao conhecimento para todos aqueles que não possuem condições materiais, é que a universidade consolidará a democracia entre os seus membros. A moradia estudantil, assim como a alimentação, a bolsa permanência, a assistência médica, o acesso ao livro, em suma, a assistência estudantil em geral, bem como a educação gratuita e de qualidade, está assegurada desde 1988 pela Constituição Federal do Brasil. Portanto, é dever do Estado, representado pelas reitorias, responsabilizar-se pela permanência dos estudantes carentes desta instituição federal de ensino superior.

As universidades públicas brasileiras têm passado por constantes expansões nas épocas recentes, porém a pretensa democracia que tem se desvelado no seu acesso não tem se estendido no que diz respeito a permanência dos seguimentos antes excluídos. Exemplos dessa situação são encontrados no projeto do REUNI e na política de ações afirmativas, que pretendem dar forma a democracia latente que pulsa nas veias da sociedade, porém têm se demonstrado insuficiente para atender as expectativas mais básicas daqueles que vislumbram as mesmas possibilidades das elites que desde sempre percorrem os corredores da academia.

O que é apresentado ao cotidiano da UFOP tem copiado insistentemente essa realidade segregante. A Universidade recebeu nesse último vestibular mais de 1000 alunos, sendo que no mínimo 30% desses são oriundos do ensino público, que se constitui a única alternativa da maioria dessas pessoas que ainda esperam do Estado o que lhe foi negado durante toda a história da sua existência.

Essa situação gerou a ocupação da PRACE na última terça-feira, quando mais de 20 alunos, entre os quais se apresentavam 5 alunos negligenciados pela debilitada assistência estudantil da UFOP, aos quais se somaram mais 8 na mesma situação, e inúmeros outros que exigiam o direito a assistência estudantil como condição para permanência desses 13 alunos.

Embora o resultado da ação direta realizada pelos estudantes tenha se demonstrado satisfatória (13 bolsas permanência e a promessa do atendimento as necessidades dos demais alunos da lista do alojamento estudantil), ainda se demonstra muito pequena frente a irresponsabilidades dessa e das outras administrações com relação a moradia estudantil socio-ecônomica, que hoje atende aproximadamente 1% dos alunos da instituição.

Diante das conquistas dessa ação direta fica claro que o movimento estudantil, organizado e unido, como é demonstrado em toda a sua história, apresenta melhores resultados do que a esperança depositada pela demagogia das atuais lideranças da maioria dos seguimentos institucionais da sociedade brasileira. Mais do que ocupar um espaço físico, é condição necessária desocupar as consciências de toda a dissimulação estabelecida, tornando-as conscientes das contradições ocultadas em nossa sociedade.


Todas as ocupações são impossíveis até se tornarem inevitáveis.


Assinam:

MOPRACE e Coletivo Amar e Mudar as Coisas.

31 de agosto de 2008

Carta Manifesto do Movimento de Ocupação da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis - UFOP

CARTA MANIFESTO

A moradia estudantil, assim como a alimentação, a bolsa permanência, a assistência médica, o acesso ao livro, em suma, a assistência estudantil em geral, bem como a educação gratuita e de qualidade, está assegurada desde 1988 pela Constituição Federal do Brasil. Portanto, é dever do Estado, representado pela reitoria, responsabilizar-se pela permanência dos estudantes carentes desta instituição federal de ensino superior.
Assim sendo, nós, alunos da Universidade Federal de Ouro Preto, aqui ocupados na PRACE - Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis da UFOP, exigimos que o Magnífico Reitor Dr. João Luiz Martins, se comprometa a oferecer uma solução emergencial a todos os estudantes que foram classificados pelo processo seletivo para ocuparem vagas no alojamento estudantil e que, no entanto, não serão alocados imediatamente nessas moradias, por serem somente 7 (sete) as vagas disponíveis neste momento.
Exigimos também que os estudantes membros da ocupação não sofram nenhum tipo de penalidade, visto que o movimento é de cunho pacífico e, sobretudo, por se legitimar na luta daqueles estudantes que não possuem condições materiais de se manterem nesta instituição.
Cabe ressalvar que em nenhum momento o movimento impediu o funcionamento da PRACE - Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis, permitindo o livre acesso, entrada e saída, tanto dos funcionários locados nesta seção quanto dos que procuraram atendimento durante o período da ocupação.
Diante da proposta do reitor, de solucionar a emergência apenas dos cinco alunos classificados no processo seletivo supracitado, de serem beneficiados por uma bolsa permanência de R$ 300,00 (trezentos reais) por somente estarem eles presentes durante a negociação com o reitor neste ato de ocupação pacífica, o movimento propõe que o mesmo benefício seja estendido aos outros alunos classificados neste edital de seleção, visto também que estes são merecedores do mesmo respeito e direito de permanecerem nesta universidade. É importante que a PRACE divulgue a toda comunidade acadêmica e em todos os meios de comunicação possíveis o direito de aquisição ao benefício reivindicado, além de conceder um prazo razoável para que os alunos interessados consigam manifestar o devido interesse.

Exigimos também:
- A garantia de bolsa permanência a todos os alunos que comprovarem, através de critério sócio-econômico, não terem condições de se manterem nesta instituição.
- que seja divulgada a lista completa dos moradores ocupantes das Republicas Federais, e que a PRACE monitore o coeficiente acadêmico dos alunos, a fim de averiguar possíveis empecilhos que estejam dificultando a boa formação do aluno.
- que a PRACE dê um posicionamento final (prazo de 01 mês) a respeito da questão do processo seletivo ocorrido para a República Jardim Zoológico.

O movimento, portanto, resolve não desocupar a PRACE até que seja garantido, em ofício assinado pelo Pró-Reitor da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis, o Sr. Rafael Magdalena, e pelo Magnífico Reitor Dr. João Luiz Martins, o compromisso de solucionar nossas reivindicações.

Ouro Preto, 27 de agosto de 2008.

MOPRACE - Movimento de Ocupação da
Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis – UFOP
Coletivo Amar e Mudar as Coisas

28 de agosto de 2008

lua vaga em noite ocupada

não vou ceder meus cabelos ao divertimento alheio
nem submeter meu pescoço às placas de moradia
não quero fazer joça aos direitos do corpo
nem comprá-los à custa de ordens ditas pela tradição
ter onde encostar a cabeça é algo sagrado
quando esta pede repouso

(a ave tem ninho e mora no céu
pois cedo se ouve o canto seu)

meu segredo é a humilhação sem batalhas
humilhação feita de humus e terra
terra sem traição das minhas buscas
: minha cara dada a tapas por motivos justos

não quero fazer posse do telhado público
onde se estendem bandeiras sujas
costuradas de privilégios
e cores que não correspondem à razão
daqueles sem abrigo

a lista dos que carecem é pendurada na sala de espera
as autoridades não demonstram urgência na resolução
desde passados
a caixinha recorda coisas pequenas, apenas
mas o treinamento de favores não
(e há bixos que sabem disso)

aos nomes descontemplados
parece restar uma opção no acaso
ocupar o gabinete da assistência
e alojar-se entre as falhas e a burocracia
incomodar é preciso enquanto se vive incomodado
(pena de pena aos acomodados da torre de marfim
sentados na pedra)
conto de fardos nesta cidade amontanhada

estas ruas são por demais estreitas
e íngremes o seu percurso mal desenhado
(nisto está a beleza delas)
a princípio não dão em nada
sem mãos e o mínimo esforço
mas a causa não é boa só nos livros
inclusive
estes precisam de uma casa

--
deivid junio.

25 de agosto de 2008


O imaginário daqueles que sonham, cada vez mais, assimilam entidades um tanto quanto peculiares. Através da assimilação do real, novas imagens gradativamente empatam o imaginário, promovendo a sua total banalização por meio de desejos que refletem o conteúdo morto que está por detrás das vitrines. Não é através da razão - ou qualquer outra faculdade do conhecimento - que nós tracejamos a felicidade, mas justamente é através da imaginação que a felicidade tem o seu corpo definido; talvez seja por isso que a garantia de felicidade oferecida pelo consumo de mercadorias sem-vida consiga inserir, dentre os olhos dos que (não)vêem, uma falsa similaridade com aquilo que há tanto é objeto de desejo da imaginação. É preciso atentar para o fato de que a imaginação não pode se comprouver com o alimento prático-imediato que é dado através de merchandises. Esse paliativo é o vício que atrofia a criatividade: se a imaginação se vende à realidade capital, nada é conseguido além do que já se possuía e é enterrada viva a capacidade de transpor o momento vivido. Os olhos passaram a ser os maiores consumidores e a imaginação o grande depósito de imagens-mercadorias. A felicidade tanto nos é imputada quanto a liberdade, que se restringe tão-somente a escolher o produto de uma falsa identificação. A realidade torna-se ainda mais estreita, e a imaginação e os anseios diurnos dificilmente encherão de ar os seus pulmões num mundo que se tornou demasiadamente poluído.

6 de agosto de 2008

Qual será seu futuro na Universidade?

A projeção de nossas vidas tendo em vistas um futuro melhor é parte constituinte da essência humana. A juventude, por sua vez, caracteriza-se por ser o ápice do desejo de mudanças, pelos sonhos de uma vida melhor.

Dentro deste contexto, cabe levantarmos algumas questões. Qual o real propósito de sua tentativa de entrada numa universidade pública? O que você espera desta universidade caso consiga passar no exame vestibular? Com relação ao curso selecionado, quais são as suas motivações para a área escolhida? Como você pretende se colocar diante da sociedade após a sua formação?

Certamente você deve ter se preparado para realizar o exame vestibular. No entanto, qual foi a verdadeira relevância do conteúdo aprendido nesta preparação, que foi lhe imputado visando pura e simplesmente o seu treinamento, muitas vezes sem nenhum tipo de reflexão? É importante ressaltar que, antes mesmo da sua entrada na universidade, a sua função enquanto ser pensante é parcialmente mutilada. Essa diversidade de ensinamentos proferidos ao longo de extensos anos de estudos, por fim colocam os estudantes como meros indivíduos disformes, numa razão mercantil uniforme, cujo fim último chama-se vestibular. O vestibulando, bem treinado e alimentado torna-se um autômato, esquecendo-se daquilo que realmente o torna humano: a sua capacidade de reflexão e escolha.

O mito recorrente de que na universidade tudo será diferente se revela falso. O fim ultimo passa a ser a inserção no mercado de trabalho. Ao invés de um espaço de desenvolvimento das verdadeiras potencialidades humanas, vemos uma capacitação para melhor vender o trabalho alienado. Se você acredita que seu futuro poderá ser melhor, convêm avisarmos: dentro da atual lógica mercantil, seu destino já está fadado. Um quadro na parede, um titulo, um emprego, uma casa própria, um bom carro e a eterna angústia de possuir apenas a liberdade de escolha para consumir e ser consumido. A universidade não gera conhecimento autônomo, visto que as pesquisas e a maioria das produções acadêmicas, de modo geral, estão voltadas para a manutenção de um sistema perverso que caminha para autodestruição humana: o esgotamento dos recursos naturais conjuntamente ao niilismo no qual se encontram os seres humanos tornaram-se os verdadeiros precursores deste abismo existencial, que se apega ao consumismo inveterado ao invés de repensar quais as possíveis soluções diante tal colapso.

Enquanto a sociedade clama por mudanças, a universidade se cala em seu academicismo. O privado se confunde com o público. Funciona como ponte de ligação entre o vestibular e o bom emprego. Enquanto isso, a sociedade, que mantêm o funcionamento da universidade, tornou-se simplesmente um espaço de exploração para a livre iniciativa (a livre competição do aniquilamento), num conflito que coloca todos contra todos e determina que somente os mais aptos se sobressairão.

A todos os que foram selecionados por meio desse darwinismo acadêmico, cabe dizer: a sua tão almejada liberdade limitar-se-á ao pequeno leque de opções que o sistema irá lhe impor. (Se preferir, lute por mudanças!)

16 de julho de 2008

Por que não se calam?

Queria que se calassem as vozes escritas que incomodam meus olhos. Queria que se calassem.

A poesia, a hipocrisia, a azia, a poeira, a ausência de burguesia destas pronúncias que diz provocações e ri do meu jeito certo. Queria que se calassem os que falam mal das tradições. O que seria dos indígenas, dos negros, dos ateus, dos militares, dos bruxos, dos santos, das humanidades sem as tradições que perduram duras e brilhantes pra reinar o bem?

Queria que calassem suas palavras de poesia e descontentamento. No momento nada disso vale a pena pra ninguém e vocês não se convencem disso.

Tudo o que incomoda meu pensamento e me contradiz deve ser calado. Não quero tocar em assuntos e verdades definitivas pra mim. Não quero que ameacem minha paz.

Prefiro que se calem e me deixem gozar da alegria dos reis em minhas fantasias. Eu parafraseio o rei de Espanha contra o fingimento das palavras. As palavras de vocês fazem doer as minhas crenças, seus desbocados!

Queria que se calassem, que desescrevessem, que despoesiassem, que se contentassem com minhas devotas tradições tão decanas...

Queria que se calassem os que, nas discussões, quando se vêem contrariados, as encerram. Pois, dentro de minha vontade de diálogo e luz de velas, não me recuso às discussões.

Queria que se calassem mas não desligassem meus microfones e megafones. Acusam-me de ofendê-los, mas na verdade espalharam com suas mentiras que nas repúblicas pessoas comem manteigas por meio de orifícios inapropriados.

Queria que se calassem, pois nos acusam de promovermos humilhação e sujeição nas hierarquias. São covardes por isso e não reconhecem nossa luta contra a indolência.

Inventam argumentos que nunca provam. Queria que se calassem uma vez que não têm como provar. Só agradam meus ouvidos e olhos e ânus as coisas prováveis.

Queria que se calassem com sua conduta mascarada de intelectualidade. Vocês espalham boatos e armam as mãos dos covardes.

Calouros, não se entreguem às paixões desses coitados que gritam chaves como "democratizar" e "liberdade"; palavras assim sempre foram usadas por grandes calhordas que mereciam ser queimados.

Queria que se calassem. Queria que se calassem os generalistas por que eles são generalistas e não são generais. E loucos por espalhar seus desejos nos desejos de todos. Queria que se calassem os utópicos com sua mania de possível impossibilidade.

Eles, não velhos, nem safados, como eu. Eu que só queria que se calassem. E não comessem mais nada de mim.

Por mim mesmo, deivid junio.

8 de julho de 2008

Marina Silva: As Universidades estão alheias à Questão Ambiental

Vê mas não percebe, ouve mas não compreende (Marina Silva)

Li na internet sobre a decepção de dois universitários, Giuliano e Carlos, que após percorrerem cinco mil quilômetros em nove estados, para sensibilizar estudantes de doze universidades e incentivá-los a ir ao Fórum de Comunicação e Sustentabilidade (realizado em junho, em Brasília), viram seu esforço reduzir-se a 130 presentes, de uma lista de mil inscritos, que foi o que restou da expectativa inicial de três mil participantes.
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Quero dizer a Giuliano e Carlos que seu trabalho foi admirável e os resultados muito bons, até porque levantaram de maneira inusitada uma grande e necessária interrogação: de que maneira, hoje, um jovem pode pretender ser revolucionário e questionar as estruturas?

Certamente não o será por meio dos fetiches do consumo, da revolução fast food entregue em casa - by delivery - pela televisão. Será na mediação entre o vivido e o compreendido pela via das informações, da imaginação, da ação e das emoções. Será sempre caminhando no rumo de uma bela utopia.
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A rebeldia de 68 exigia liberdade, democracia, paz, alegria. Atacava a hipocrisia dos costumes e as instituições autoritárias. Influenciou inúmeros movimentos posteriores que ajudaram a desenhar os contornos da utopia de agora, da revolução de nossos tempos. Que mudou de tom, tornou-se mais complexa, sofisticada, e menos um enfrentamento linear com o "mal", pretendendo saber exatamente o endereço e o nome do "bem".

Hoje, a utopia é mais exigente, porque o "bem" e o "mal" não estão evidentes, não estão encarnados na individualidade de heróis. Estão na trama, no tecido, no encontro das diferenças e na capacidade individual e coletiva de descobrir identidades, objetivos comuns. Hoje, está agudamente claro que a revolução é civilizatória e depende muito mais de entendimento do que de doutrina.
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É verdade que o uso do discurso "sustentabilista" como mera ferramenta de marketing complica e confunde. Daí a importância da insistência, da criatividade e da expansão dos temas que trazem o cerne do conceito, ou seja, equilíbrio ambiental, eqüidade social, economia não predatória, respeito à diversidade e recriação da prática política.

Em tese, universidades seriam o espaço de acolhimento e fecundação do desenvolvimento sustentável, não só como objeto do conhecimento acadêmico mas como bandeira de engajamento político. E isso não está acontecendo
, como Giuliano e Carlos constataram com angústia e constrangimento.

Mas não devem criticar apenas o jovem que faz cara de paisagem. É preciso, também, questionar a própria instituição Universidade, com seu estranho alheamento, em plena crise ambiental global aguda, exposta em todas as mídias. Que tipo de estímulo os jovens recebem? Quem são hoje nas universidades os grandes intelectuais, mentores e fomentadores da atitude de mudança?

As entidades estudantis, por sua vez, parecem ainda não terem ressignificado suas formas de organização e militância para dar conta das questões do presente. Talvez não tenham sabido fazer a transição da pauta política de décadas atrás, ou percebido quais os caminhos da transformação das estruturas na atualidade.

O alheamento também traduz descrença generalizada, o que induz à descrença em si mesmo, à sensação de impotência ante a magnitude dos desafios. Você se limita a assistir. Assiste ao espetáculo dos problemas sociais, da fome na África, da degradação ambiental global, da violência, da intolerância, sem se ver, em nenhum momento, como parte do problema ou da solução. É o sujeito-espectador. Como diz o provérbio bíblico, vê mas não percebe, ouve mas não compreende e, às vezes, sente mas não se compromete.

Estamos submetidos à superexposição da informação, sem nenhum chamado ao compromisso. É um combinado de hiperassimilação dos problemas com baixo nível de consciência e atitude.

Portanto, que os muitos Giulianos e Carlos das utopias civilizatórias não desanimem! Ao contrário, agora é que precisamos de todo o nosso ânimo e de tranqüilidade para descobrir ganhos, mesmo nos momentos em que, aparentemente, o fracasso é retumbante.

(http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2994399-EI11691,00.html)

4 de julho de 2008

Qualquer maneira de amor vale amar*

11 anos depois da 1ª Parada do Orgulho GLBT do Brasil, em São Paulo, Ouro Preto (MG) desfila, na mesma ocasião da data dedicada mundialmente ao orgulho homossexual, a bandeira Arco-íris sobre suas ruas de pedra.

Com uma programação de três dias (27, 28 e 29 de junho) que privilegiou mais o entretenimento, a balada e a descontração dos shows e de boates montadas especialmente para o evento, e sob o tema “Amor, Liberdade, Respeito à Igualdade Social e Racial”, a Parada propôs poucos debates mas gerou muita discussão e opiniões avessas na população ouropretana e na comunidade universitária, aliás, as duas revelaram-se afinadas em um ponto: o tradicionalismo mofado de preconceitos.

Nos dias que precederam a realização da Parada, eram comuns a desconfiança, o deboche, a curiosidade e a fobia nas conversas que pairavam praças, comércios e bares, esquinas, ônibus, em filas de bancos e nas filas dos restaurantes universitários. Enfim, o evento, por si só, ampliou em pouco tempo um debate que fez cair máscaras ou fez calar opiniões mais tímidas. E “o preconceito bate no peito esclarecido”. .. Algumas repúblicas estudantis federais da Ufop, principalmente aquelas situadas no centro histórico da cidade e, mais ainda, no trajeto da passeata de domingo, famosas por sua tradição e seu carnaval, tiveram a atitude de recolher suas placas de nome e símbolo de suas portas por ocasião do evento. Não queriam se ver exibidas na paisagem da manifestação pelo respeito à diversidade sexual? Pretendiam confirmar visualmente o não envolvimento de seus nomes sagrados na festa das cores? Tiveram medo de aproveitar a alegria do orgulho e, embora fora da época, se entregar ao carnaval, mas do respeito e da paz?

A homofobia está em todos os setores da sociedade, em todas as classes, no meio universitário com seu esclarecimento reivindicado, nos discursos religiosos e culturais, nos processo seletivos do mercado, no olhar preconceituoso da tradição e no interesse do sistema em busca de grupos consumidores. Recordo aqui que, independentemente da sexualidade ou pertencimento a grupo étnico, poder aquisitivo é sinônimo de inclusão neste contexto social capitalista.

O Arco-íris pretende acordar para a necessidade de conciliar todas as cores, as mais diversas, num mesmo compromisso: o respeito às diferenças e o reconhecimento de que aí reside a riqueza da natureza, plena em suas cores e formas, em sua bio-diversidade, em sua perfeita convivência.
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Esperamos da Universidade, lugar privilegiado de diálogo das diversidades e valorização do que realmente é universal, uma política que incentive dentro e fora de seus espaços o cumprimento do respeito à diversidade sexual (gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros) , visto que pensamos sair daqui pessoas íntegras e sociais, a serviço de uma sociedade que abarca todas as diferenças possíveis... e nós estamos inseridos nela.
Oxalá, encontremos o caminho!

*O título foi extraído da letra da canção ‘Paula e Bebeto’ de Milton Nascimento e Caetano Veloso
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Deivid Junio - graduando em filosofia/Ufop
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Saiba como tudo começou... 28 de Junho: Dia mundial do orgulho GLBT
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